O futebol português está à beira de um enorme abismo financeiro. Esta é a mais "lapalissiana" das verdades futebolísticas nacionais, mas aquela a que todos preferem fazer orelhas moucas. Nos últimos anos vários foram os clubes, com maior ou menor historial que vimos cair devido aos buracos financeiros criados ao longo de épocas e épocas passadas a viver acima do potencial do clube. Campomaiorense, Salgueiros e Alverca foram, no entanto, apenas a ponta do icebergue. Vitória de Setúbal e Beira-Mar já tremeram muito, e se os primeiros parecem ter encontrado um caminho para a estabilidade, já os segundos continuam a ter sob ameaça a continuidade do futebol profissional. O maior caso de preocupação é, no entanto, um clube que já foi campeão nacional e já ombreou com alguns dos maiores emblemas europeus na Taça UEFA e mesmo na Liga dos Campeões. E quando estamos a falar de um clube destas dimensões, então é porque o caso é mesmo grave.
É certo que o caso do Boavista reveste-se de circunstâncias especiais. Durante anos os axadrezados foram um exemplo de gestão, comprando barato e vendendo caro, especialmente aos três grandes, e conseguindo mesmo assim manter equipas competitivas que mantinham o clube nos lugares cimeiros da tabela e com boas prestações uefeiras. Os problemas começaram quando os três grandes atingiram, também eles, pontos de ruptura, e começaram a oferecer menos pelos craques dos outros clubes nacionais. Ricardo, Petit, Bosingwa e Raúl Meireles saíram do Bessa por muito menos do que seria de esperar; o caso do agora 6 benfiquista é paradigmático: o Benfica comprou apenas metade do passe, coisa impensável meia dúzia de anos antes. Ainda assim as contas poderiam ter sido controláveis se não tivesse surgido o evento que agora parece querer enterrar o Boavista: o Euro 2004.
De todos os estádios construídos para o Euro apenas quatro pertencem aos clubes que os utilizam: Luz, Dragão, Alvalade e Bessa. Os boavisteiros aventuraram-se na total reconstrução do Bessa, contando que poderiam ser ajudados pela Câmara, que já havia sido generosa com o FC Porto no Plano de Pormenor das Antas (PPA). Em Lisboa passara-se o mesmo com Benfica e Sporting, que contaram com uma ajuda preciosa nas trocas e vendas de terrenos por parte da Câmara da capital. Mas as eleições autárquicas de 2001 trazem um desfecho adverso a estas ambições: Fernando Gomes é derrotado por Rui Rio, e a bondade da nova administração para os clubes de futebol foi bastante mais diminuta.
Rui Rio ganhou notoriedade com o finca-pé com Pinto da Costa na tentativa de remodelação do PPA, e tendo ganho fama no combate às alterações das "bonificações" a que o FC Porto iria ter direito não poderia estar, por outro lado, a dar ajudas ao rival portuense. Aqui começou o naufrágio do Boavista: tendo de pagar o estádio do próprio bolso (algo que mais nenhum clube fez) e com receitas de clube médio, as contas começaram a cair para o vermelho. As presenças bem sucedidas na Champions e na Taça UEFA durante os anos Pacheco ajudaram a disfarçar durante uns tempos, mas o buraco era incontrolável. Por ano, o Boavista tem de abater 5 milhões de euros para o pagamento do estádio. Mesmo para um dos três grandes esse número é elevado.
A descida de divisão decretada pelo Apito Final coloca em risco a própria sobrevivência do clube. Com a quebra de receitas provocada pela queda ao segundo escalão e a muito provável saída da maior parte dos jogadores por rescisão unilateral (Mateus, Luís Loureiro e Edgar já acionaram os mecanismos legais para abandonarem o clube) a somar-se ao vazio directivo provocado pela saída de Joaquim Teixeira (que nunca esteve à altura dos acontecimentos, e ainda se deu ao luxo de tirar férias quando os jogadores mais precisavam dele!), o futuro do clube é um enorme ponto de interrogação. Será que haverá alguém que queira, nestas condições, pegar no clube e encontrar uma solução de futuro? E será que há jogadores com vontade de arriscar assinar por um clube falido? O futuro do Boavista depende agora, sobretudo, do recurso da decisão do Apito Final. E, se a decisão for contrária ao clube do Bessa, temo que em Alvalade, no passado dia 11 de Maio, possamos ter visto as camisolas axadrezadas pela última vez...
Mostrando postagens com marcador finanças. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador finanças. Mostrar todas as postagens
sábado, 24 de maio de 2008
Assinar:
Postagens (Atom)